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AC/DC: Trem Inabalável

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por Marcos Bragatto e Mário Martins | 29/01/2010
AC/DC: Trem Inabalável Imagem: Divulgação

O segundo álbum mais vendido nos EUA em toda a história é Back In Black, lançado pelo AC/DC em 1980, meses após a morte do insubstituível vocalista Bon Scott. Quando você correr os olhos por estas linhas, o disco já deve ter ultrapassado a marca das 50 milhões de cópias. Só Thriller, de Michael Jackson, tem desempenho melhor.

 

Na soma dos resultados de seus títulos em catálogo, considerando os números a partir de 1991 – ano em que a SoundScan passou a monitorar vendas nos EUA  com métodos mais confiáveis –, a veterana banda australiana supera até mesmo o finado Rei do Pop. E também os Rolling Stones, Madonna, Led Zeppelin... Os Beatles são os únicos que apresentam um volume maior. No entanto, se considerados apenas os discos negociados no ano passado, o AC/DC ganha até do quarteto de Liverpool: foram nada menos que 12 milhões de cópias comercializadas em 2008 (veja o boxe Aula de Marketing, sobre as estratégicas de marketing usadas para vender o catálogo do AC/DC).

 

É, não são apenas glórias do passado, não. Nos EUA, a Black Ice Tour, do AC/DC, que para na estação Morumbi, em São Paulo, no dia 27 de novembro, briga com cachorro grande. Compete dólar a dólar com as excursões de Madonna, Sticky & Sweet, e a inovadora 360º, do U2: são as top bilheterias da temporada. Os 67 mil ingressos para o show paulistano se esgotaram no primeiro dia, e outros três mil adicionais que a produtora Time For Fun disponibilizou depois também sumiram quase de imediato.

 

Black Ice, álbum que marcou o retorno do quinteto liderado pelo guitarrista Angus Young, saiu em outubro de 2008 e foi primeiro lugar em 29 países. Nos Estados Unidos, a estratégia foi singular, mas funcionou: o disco e o game AC/DC: Rock Band começaram sendo vendidos com exclusividade pela cadeia Wal-Mart ou pelo site da banda. Ainda assim, já na primeira semana, 1, 762 milhão de cópias foram comercializadas. Nada de faixas para download.

 

O trem gigantesco escolhido para decorar o palco da turnê é uma metáfora perfeita. O AC/DC não sai dos trilhos, leva de um lugar para outro sem solavancos, sem sustos, sem desvios, sem improvisos. Quando você entra, já sabe para onde vai. Taí uma banda que não pesquisa ritmos, não vai em busca de novas influências, não experimenta no estúdio, não chama um DJ, não tenta acompanhar os novos tempos, não muda sequer de visual! Como brinca o líder do grupo, Angus Young: “O Malcolm (seu irmão, responsável pela guitarra base) usa o mesmo jeans há anos, e o Brian, se bobear, jamais lavou o dele”. O renomado produtor Rick Rubin  arrisca: "Eles são a maior banda de todos os tempos. Não escreveram letras emotivas. Não tocam canções emotivas. A emoção está toda no groove. E o groove é atemporal”.

 

Em um mundo frenético e neurotizado por atualizações tecnológicas, o AC/DC é aquele cara que se recusa a saber para que serve o botão F5 no teclado do computador. Não faltam explicações para tanto sucesso. Em outubro, o jornalista americano Anthony Bozza lançou nos EUA o livro Why AC/DC Matters (Por Que o AC/DC Importa) pela editora William Morrow, uma defesa da relevância da banda para a história do rock e tentativa de radiografar seu inegável apelo popular (leia entrevista com Bozza na pág 43). O autor leva a sério a tarefa, analisando letras sacanas escritas pelo vocalista Bon Scott do ponto de vista literário: “Shot Down In Flames”, por exemplo, que fala sobre tentativas de “pegar mulher” em bares, ganha comparação inusitada. “Bon retrata a si mesmo como anti-herói byroniano (alusão ao poeta romântico inglês Lord Byron,1788-1824)”, viaja.

 

No Brasil, a Companhia Editora Nacional planeja lançar até o fim de novembro “A história do AC/DC – Let There Be Rock”, escrito pela americana Susan Masino. Apesar de a autora ser jornalista, o texto se aproxima mais do registro de uma fã, com domínio rudimentar da narrativa e excesso de reminiscências pessoais. De qualquer forma, vale pela quantidade de informações (ainda que não muito bem organizadas) reunidas e também por algumas anedotas.

 

Exemplo de uma delas: certa ocasião, em Belfast, na Irlanda do Norte, Angus Young sofreu um imprevisto durante o tradicional strip-tease humorístico que faz em todos os shows. Geralmente ele termina só de cueca e exibe o traseiro após algum suspense. Daquela vez, porém a roupa de baixo estava furada e seu pênis ficou para fora, sem que o guitarrista percebesse. O irmão Malcolm o alertou, enquanto morria de rir, mas ninguém fotografou. Como o próprio Angus disse, brincando para a autora, após ler trechos do livro: faltou incluir mais bandalheira.

 

É tarefa inglória. Parece que a maior parte da lama foi sepultada junto com o vocalista Bon Scott, morto em 1980 (provavelmente sufocado pelo próprio vômito) e dono de vasto folclore envolvendo excessos – a maior parte das histórias, porém, é sobre sexo “convencional” e drogas legalizadas como o álcool. O AC/DC tem a reputação de ser uma das bandas mais “gente fina” no meio roqueiro. “Já trabalhei com Bon Jovi, U2, Bee Gees, Bruce Springsteen... Não tem banda que trabalhe mais duro. Eles são os caras mais legais do mundo. Bem-educados, centrados nas famílias...”, elogia Mike Andy, ex-diretor de turnê.

 

Todos que trabalham com o quinteto ressaltam esse caráter “trabalhador” e “familiar” dos integrantes. Angus, por exemplo, é casado desde 1980 com uma holandesa e, tirando o fato de que ela é 15 centímetros mais alta do que ele, pouco é exposto na mídia. O guitarrista se divide entre a casa em uma pequena cidade na Holanda, Aalten, e a Austrália. Angus e seu irmão Malcolm, que já teve problemas com o alcoolismo, fogem da bebida desde os anos 80. O baterista Phil Rudd se esconde pela Nova Zelândia assim que acabam as turnês. Brian Johnson mora em uma ilha paradisíaca em Sarasota, na Flórida, onde é vizinho do baixista Cliff Williams – e também de milionários que possuem casa por lá, como os apresentadores de TV Oprah Winfrey e Jerry Springer.

 

Brian Johnson está lançando, pela Penguin Books, um livro de memórias baseado em suas experiências com veículos. Piloto semi-amador e apaixonado por carros, ele desfia um repertório de histórias bemhumoradas, como sempre demonstra nas entrevistas, e também aborda assuntos sérios, como a convivência com o pai, ex-soldado inglês durão, e o preconceito sofrido por ser filho de uma italiana no período pós-guerra. “Eu e meu irmão tivemos que sair na porrada com muita gente até provar que não éramos fascistas”, lembra.

 

Brian, 62 anos, é um dos pontos de urgência desta turnê. É o mais velho da banda, e o uso que faz da voz, emitindo notas incrivelmente altas sem apelar para o falsete, já deveria ter acabado com sua carreira a essa altura. Se os irmão Young são abstêmios, ele ainda bebe vinho e, ocasionalmente, uísque. Também não dispensa um cigarrinho de palha. No mês passado, uma úlcera obrigou a banda a adiar várias datas. Mas o cantor segue firme e forte: “Antes desta turnê, pedi ajuda ao Nick Harris, guru de preparação física da Fórmula 1. Tenho medo constante de que alguém veja o show e diga: ‘Pô, tinha que ver esse cara há vinte anos, quando estava no auge...’ Por isso acho que a gente tem que parar enquanto esta por cima”.

 

A maioria das críticas que a Black Ice Tour vem tendo concorda que o trem do AC/DC está a todo vapor. “Os dois minutos iniciais são provavelmente a mais excitante abertura de shows de todos os tempos”, proclama Brian. “Pegamos o cara que fez a abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Custou mais de US$ 6 milhões!” O tal sujeito a que ele se refere é Mark Fisher. Um inglês formado em arquitetura no final dos anos 60, que se especializou, como designer de estruturas temporárias e infláveis, e que hoje é famoso no show biz internacional por criar cenários espetaculares. Todos os palcos do Rolling Stones desde 1989 e do U2 desde 1992 saíram de suas mãos – e também de algum de seus colegas no escritório da Stufish, empresa que mantém em King’s Cross, em Londres.

 

Seu primeiro trabalho no ramo é famosíssimo: os bichos gigantes usados pelo Pink Floyd na turnê de Animals, em 1977. Naquela época, quase ninguém no rock e na música pop usava grandes cenários ou elementos de palco mais complexos. O baixista e então ditador do Pink Floyd, Roger Waters, o chamou novamente para fazer nada menos do que o paredão da turnê de The Wall, em 1979. “Na verdade, eu comecei a desenhar esboços um ano antes, tentando convencer a banda de que era possível. Em setembro recebi sinal verde e os primeiros shows foram em fevereiro”, lembra Fisher. Suas recordações não são nada glamourosas: acumulando o trabalho de carpinteiro com o de designer, ele tinha de acionar os controles que faziam o muro desmoronar todos os dias. Ficava no backstage e jamais conseguiu ver o que o público via. Hoje, após o trabalho em The Division Bell, em 1994, ele é brigado com Waters, que qualifica como “maluco”.

 

O impressionante portfólio de Fisher não se resume ao universo musical, como bem referenciou o contratante Brian Johson. Além de abertura e encerramento em Pequim, ele foi responsável por um inovador trabalho no espetáculo  KA, do Cirque Du Soleil, que não usa palco convencional, apenas plataformas flutuantes e elevadores. Seu mais badalado trabalho atualmente é o palco da turnê 360º do U2, tido como marco revolucionário e importante para o futuro do show business.

 

Com esse aspecto, a Black Ice Tour não pretende competir. O AC/DC tem uma longa tradição de usar aspectos cênicos. Nos primórdios, antes de optar pelo uniforme colegial, Angus usou roupa de Zorro, de Homem-Aranha e de Super-Angus... Os canhões de “For Those About To Rock” viraram marca registrada dos shows, bem como a boneca gigante Rosie que ilustra a canção “Whole Lotta Rosie”. "Isso é uma das coisas mais legais da banda. Eles sabem que poderiam subir no palco sem nada em volta e apenas tocar. As pessoas sairiam felizes. Mas eles querem sempre um visual novo, sem ser abertamente teatral, mas que reproduza ao menos a capa do álbum. Embora não precisem, fazem pelos fãs”, explica Pete Capadoccia, conhecido como Pyro Pete, no livro The Story Of AC/DC – Let There Be Rock. Ele é há mais de duas décadas o pirotécnico encarregado de administrar algumas dessas extravagâncias.

 

"Quando comecei, tínhamos dois canhões, que usamos em um par de turnês. Depois mudamos o palco e eles ganharam a aparência de canhões de um navio de guerra. A partir de 1991, na turnê Monsters Of Rock, já tínhamos 21 deles: sete de cada lado e sete no meio”, lembra. “O sino também passou pelo mesmo número de variações. A cada turnê alguém perguntava: ‘O que podemos fazer com o sino agora?’ Brian adora isso.”

 

Não faltam histórias de pequenos acidentes e desastres hilariantes. A cabeça de um Angus Young gigante quase esmagou Phil Rudd certa vez; em Portugal, a Rosie inflável já desabou sobre o kit de bateria, e o próprio Angus já se viu preso em uma estrutura elevadiça sem ter como descer... A corda do sino em que Brian Johnson se pendura já se rompeu. O cantor caiu de costas no chão e depois ainda despencaram 12 metros de corda em seu peito. “Ele imediatamente levantou e começou a agitar no palco. Tudo que disse foi: ‘Corda barata de merda!’ Não perdeu nem um compasso”, lembra Pete. “É muito divertido quando algo dá errado. Qualquer outro rock star iria pedir cabeças, saber quem foram os responsáveis”, brinca o técnico. Obviamente, esse bom humor só acontece porque quase nunca algo dá errado. O trem do AC/DC é infalível, assim como os riffs de Malcolm e Angus Young.

 

NO ROCK IN RIO

Em momento de transição, o AC/DC foi uma das atrações da primeira edição do festival, em 1985. Angus Young chocou o Brasil em um dia histórico para o país – em vários sentidos

 

Pego de surpresa para se apresentar na primeira edição do Rock In Rio, em 1985, já que a turnê do álbum anterior, Flick Of The Switch, havia sido encerrada, o AC/DC acabou interrompendo as gravações do disco seguinte, Fly on the Wall, para vir ao Brasil. O grupo integrava uma escalação que reunia, entre outros pesos pesados do rock, Ozzy Osbourne, Iron Maiden, Scorpions e Whitesnake. Como as bandas tocavam em dois dias (exceto o Iron), o quinteto teve três dias de folga entre as apresentações e pôde curtir o calor, as praias cariocas e belezas locais como o Pão de Açúcar.

 

Na entrevista coletiva, o bem-humorado Angus Young  brincou sobre tentar encontrar um lugar pra comer fish’n’chips (peixe com batata frita, popular refeição britânica) no Rio de Janeiro, mas os jornalistas não pescaram. Quando foi perguntado se o AC/DC iria fazer o rock’n’roll mais popular (usando a expressão “bigger”; em português, maior) no Brasil, o baixinho arriscou outra piada: “Bom, nós não somos muito altos, não podemos fazer o rock ficar maior”. Ninguém riu e, ele teve de continuar a resposta, meio sem graça. “Provavelmente, acho que vai ajudar, sim, ver pela primeira vez tanto rock’n’roll no mesmo lugar...”

 

O Brasil era visto pelos músicos como país exótico. Brian Johnson, que arriscou alguns “brigado” durante o show, falava sobre “troca cultural” também sem perder a piada. “Todo mundo pensa em conferir o samba e tal. Aqui os garotos recém descobriram o rock’n’roll. Uns 30 anos depois, né? Bem, antes tarde do que nunca...” A banda ficou hospedada no Hotel Nacional, projetado por Oscar Niemeyer e atualmente desativado. Angus & Cia. aproveitaram a praia de São Conrado, logo em frente, em trecho que hoje é impróprio para banho devido ao alto índice de coliformes fecais.

 

Embora na época os shows não tivessem tantos efeitos especiais como os de hoje, o AC/DC fez questão de trazer os canhões que disparam em “For Those About To Rock (We Salute You)” e o sino gigante usado em “Hells Bells”. Como a estrutura do palco não suportaria o peso, a alternativa foi substituir a trapizonga por um  sino de gesso, mais leve. As cerca de 50 mil pessoas que compareceram ao show do dia 15 e as outras 200 mil que estiveram na Cidade do Rock no dia 19 nem perceberam a diferença.

 

O repertório era mais ou menos o da curta turnê anterior, que trazia apenas “Guns For Hire” entre as novas. Nessa época o AC/DC dependia mais de hits da época da fase com Bon Scott... Mas Back In Black tinha cinco músicas incluídas no repertório. Como headliner, o grupo tinha mais tempo para se apresentar, mas o show do dia 19 teve duração menor que o do dia 15, provavelmente pelo número de atrações, naquela que ficou conhecida como “noite do metal”, com o público se  divertindo em meio a um terrível lamaçal. Os que foram na terça, além de ter visto três músicas a mais (“Shot Down in Flames”, “The Jack” e “Jailbreak”), escaparam da tempestade que se abateu sobre a cidade. Mas, dentro da rigorosa predileção dos fãs de heavy metal, tiveram de encarar Kid Abelha, Eduardo Dusek e Barão  Vermelho antes dos Scorpions, a outra atração gringa da noite, entrarem no palco. No dia 19, o show de Erasmo Carlos, vaiado na noite de estréia, foi transferido para o dia seguinte, restando Baby & Pepeu, Whitesnake, Ozzy Osbourne e Scorpions, antes do AC/DC.

 

Em referência à eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral, encerrando um período de 21 anos de regime autoritário, os jornais cariocas apelidaram a noite de 15 de outubro de “festa da democracia”. Mas o público headbanger demonstrou tolerância zero em relação a Kid Abelha e Eduardo Dusek, brindados com uma chuva de pedregulhos e copos de papel (vazios, dobrados, ou cheios de líquidos diversos).”As pessoas que estão jogando coisas no palco têm mais é que ser  linchadas”, gritou Dusek divertindo ainda mais o povo de camisa preta. “Não está a fim de escutar música? Fica em casa e se suicida!” A rivalidade estabelecida entre atrações brasileiras e internacionais levou Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso, a se manifestar, pouco depois, em uma entrevista à revista Veja: “Não tivemos muito o que aprender no Rock in Rio. O melhor guitarrista do festival foi o Armandinho, do Moraes Moreira. Angus Young eu acho um mão dura”.

 

O guitarrista monopolizou as atenções dos shows. O momento “ataque epilético”, em que parece estrebuchar no chão, girando o corpo sobre si próprio sem parar de tocar, foi apoteótico. Chocou o público de todo o Brasil, que acompanhava a cobertura pela TV. No Jornal Nacional do dia 16 de janeiro, o strip-tease de Angus Young foi noticiado – e elogiosamente!

 

A SEGUNDA VINDA

Em outubro de 1996, o AC/DC voltou ao Brasil para tocar em Curitiba e em São Paulo. Com o baterista original, Phil Rudd, e uma superprodução incrível

 

Não é sempre que um grupo cheio de sucessos no currículo inicia um show tocando justamente o maior deles, e foi exatamente o que o AC/DC fez no Pacaembu, no dia 12 de outubro de 1996. Era a turnê do álbum Ballbreaker e, quando uma bola gigante sustentada por um cabo de aço demoliu o paredão de tijolos, Angus Young surgiu correndo de uma lado a outro tirando os primeiros acordes de “Back In Black” para levar as cerca de 55 mil pessoas à loucura. A turnê marcou o retorno do baterista Phil Rudd ao grupo, completando a formação clássica, à exceção, claro, de Bon Scott. O grupo só voltaria à estrada quatro anos depois.

 

Desde a turnê de 1992 o AC/DC vinha fazendo dos shows superproduções que realçam a performance do grupo. No Pacaembu, apresentou uma série de efeitos de tirar o fôlego (como se a música, por si só, não fosse capaz disso). Rosie, a mulher infl ável gigante alusiva à música “Whole Lotta Rosie”, fez sua primeira aparição no Brasil. Em “Highway To Hell”, no bis, Angus Young surgiu de dentro de uma jaula que emergia do piso como se realmente tivesse subido do inferno, com os clássicos chifrinhos da capa do álbum de mesmo nome. Antes, em “Boogie Man” o gaiato tinha feito seu obrigatório strip-tease, sempre mostrando a cueca samba-canção com a bandeira do país onde toca. Brian Johnson teve seu momento de brilho coadjuvante ao se dependurar na esfera de aço e depois carregar o nanico Angus nas costas.

 

O repertório incluiu quatro músicas de “Ballbreaker”, de 1995, reconhecidas e cantadas pelo público. Ao longo das mais de duas horas de show, o estádio todo parecia cantar tudo junto com a banda. Não faltaram o sino gigante gongado por Johnson em “Hells Bells” nem os tiros dos canhões  medievais em “For Those About To Rock (We Salute You)”, que tradicionalmente encerram os shows. Angus ainda encontrou tempo para, após o solo, fazer sair faíscas de sua guitarra e da estruturas metálicas do palco, que reproduziam um canteiro de obras com grua e tudo. Back In Black continuou sendo o disco com maior número de músicas incluídas no set, dessa vez apresentando também “You Shook Me All Night Long”, a grande ausência nos shows do Rock In Rio. Outros clássicos, inclusive da fase  Bon Scott, se mostraram vivíssimos, cada vez mais adaptados à voz singular de Brian Johnson. Entre eles, “Dirty Deeds Done Dirt Cheap” e “TNT” foram os que mais sacudiram o público. Além, é claro, de “Let There Be Rock”, que Angus usou para detonar seu número de guitarrista aloprado, com uma disposição de garoto – embora, na época, já contabilizasse mais de 40 primaveras.

 

Na véspera, coincidentemente o dia da morte de Renato Russo, o AC/DC tocara em Curitiba, na Pedreira Paulo Leminski, para outras 50 mil pessoas, público considerado recorde do local até hoje. A abertura foi feita pelo trio virtuose Dr. Sin, e em São Paulo, a honra coube ao Angra, ainda com a formação "clássica" e com dois álbuns lançados. O roteiro das duas apresentações foi idêntico, e a turnê está registrada no DVD No Bull, gravado na Plaza de Toros de Las ventas, em Madri. Lançado originalmente em 1996, o título ganhou no ano passado uma versão “director's cut”. Em relação às músicas tocadas nos shows do Brasil, tem um bônus: “Dog Eat Dog”. Curiosamente, há poucas imagens desses shows brasileiros disponíveis no YouTube.

 

AULA DE MARKETING

Comédia Escola do Rock, estrelada por Jack Black, ajudou o AC/DC a conquistar novas gerações, coroando estratégia da Sony, que desde 2003 explora o catálogo da banda

 

As vendas do catálogo do AC/DC aumentaram substancialmente de 2003 para cá. Aquele ano marcou a estreia da comédia Escola de Rock, cujo roteiro mostra um roqueiro fracassado que se passa por professor substituto e decide montar uma banda com os alunos pré-adolescentes. Na trilha sonora, entre muitos clássicos do rock, o AC/DC comparece com “Back In Black”, “Highway To Hell” e It’s a Long Way To The Top (If You Wanna Rock’n’roll)”, que fecha o longa com os créditos já na tela, numa das cenas mais hilárias do filme. O tal professor, interpretado por Jack Black, sobe no palco com a clássica indumentária de colegial usada por Angus Young para tocar a faixa-título – não por acaso uma música bem no estilo AC/DC. Voltado para adolescentes, o filme colaborou para um improvável – a essa altura – interesse das novas gerações pelo grupo.

 

Na verdade, o ano de 2003 marca o começo da exploração dos direitos do catálogo da banda pela Sony (à exceção de Ballbreaker e Stiff Upper Lip, que depois também foram incorporados). Em fevereiro daquele ano, o selo Epic jogou no mercado americano edições especiais remasterizadas, com encartes de 16 páginas trazendo textos de críticos de renome como David Fricke, e uma estratégia especial para a internet. No endereço acdcrocks.com, os compradores dos CDs podiam navegar por uma área exclusiva, com vídeos, fotos e exclusivas versões ao vivo.

 

Em 2006, a Sony renovou o  contrato com a banda para explorar o catálogo. Entre os passos seguintes, outra bela tacada: costurar um forte acordo com a MTV para promover o lançamento, em novembro do ano passado, do game AC/DC Live – Rock Band, já em apoio ao álbum Black Ice. Enquanto isso, Jack Black seguia rodando com Escola do Rock por canais a cabo e TVs abertas, sempre conquistando novos pupilos para o AC/DC.

 

OS SEGREDOS DO SUCESSO

Motivado pelo descaso da crítica e diante de números eloquentes, jornalista lança livro Why AC/DC Matters (Por Que O AC/DC Importa) que reivindica novo status para a banda

 

Anthony Bozza é um respeitado jornalista musical americano, autor de biografias de Slash e Eminem, entre outros livros. Durante o tempo em que trabalhou na revista americana Rolling Stone, ele cortava um dobrado para aprovar pautas sobre uma de suas bandas preferidas. Logo Bozza percebeu que o AC/DC, apesar de todo o sucesso, não recebia o devido reconhecimento da crítica especializada. Com o lançamento do álbum Black Ice, no ano passado, ele se deparou com  números incontestáveis que expressavam a grandeza do grupo australiano. Assim nasceu o livro Why AC/DC Matters, recém-lançado nos EUA pela editora Harper Collins (e sem previsão para sair no Brasil).

 

Nesta entrevista feita por telefone, direto de seu escritório, em Nova York, o autor conta como foi a busca por explicações para o sucesso e a relevância de um grupo que faz um som simples, mas cativante. De quebra, Bozza explica como é o show da Black Ice Tour que o Morumbi verá em 27 de novembro – e que ele, como bom fã, conferiu quatro vezes.

 

Do que você trata no livro Why AC/DC Matters?

É uma explicação sobre a importância da banda. O AC/DC tem milhares de fãs pelo mundo, vendeu milhões de discos, só foi superado pelos Beatles, e o único álbum que vendeu mais que o Back In Black foi Thriller, do Michael Jackson. Mesmo com esses fatos, eles ainda são uma dessas bandas que nunca tiveram o mesmo tipo de tratamento da crítica que outras têm. São sempre tratados como o tipo de banda que faz muito sucesso, mas não merece qualquer apreciação da crítica. São tratados como bandas barulhentas, atrasadas, como bandas de metal que só compõem as mesmas músicas o tempo todo, os mesmos acordes e  letras estúpidas. Eu trabalhei na Rolling Stone americana durante sete anos e participei de várias reuniões onde discutíamos edições com listas das maiores bandas de rock de todos os tempos ou os melhores discos dos anos 70, e toda a vez que eu trazia o nome do AC/DC à tona, os outros olhavam para mim como se dissessem: “Eu nem sei sobre o que você está falando”. Eu queria colocar isso à prova. Se você falar com qualquer músico, engenheiro de som ou produtores, qualquer um do mercado da música, todos falam que o AC/DC entende fundamentalmente o que é o rock’n’roll. Todos que atuam no mercado do rock compreendem, mas a crítica não.

 

Foi idéia sua ou a editora que te pediu?

Foi minha idéia. Eu e o meu editor estávamos conversando sobre como há muitos livros aqui nos Estados Unidos com o título “why something matters” (por que alguma coisa tem importância), esse tipo de coisa. E ele queria começar a lançar livros sobe bandas de rock e cultura pop, então havia a idéia do “Why The Beatles Matters”, mas é óbvia a razão pela qual eles têm importância e eu acho que não conseguiria escrever sobre uma banda que eu nunca vi ao vivo. A conversa começou por aí, eu sugeri AC/DC e eles abraçaram a idéia.

 

Com quem você falou para chegar a essas conclusões?

Eu falei com o Slash, Tommy Lee, o produtor Rick Rubin… Eu queria explicar porque essa fórmula tão simples funciona tão bem. Para isso fui conversar com professores de guitarra e de canto da Universidade de Música de Berkeley, uma das melhores no ensino de música, e foi muito interessante. O professor de voz explicou o que acontece na garganta do homem quando ele canta e foi muito interessante entender o quanto bons são Brian Johnson e Bon Scott como vocalistas. O professor de guitarra explicou o que acontece no diálogo entre Angus e Malcolm, e porque eles usam três ou quatro acordes para criar riffs incríveis.

 

Como você compararia esse palco com o palco de outras turnês?

Eu diria que dessa vez eles colocaram tudo que havia nos outros palcos em um palco só. Não é algo tão grande quanto o palco do U2, com telões gigantes e tal, porque não funcionaria. Mas eles têm muita fumaça e fogo no trem, que é realmente gigante, tem a “Rose” infl ável, a mesma de sempre, tem o sino de “Hells Bells”, é um show muito bom, podem comprar o ingresso sem erro.

 

A maior crítica que recai sobre o AC/DC é a de o grupo fazer sempre a mesma música, mas eles nunca fizeram concessões ou mudaram essa fórmula matadora...

Eu acho que essa é outra razão de eles terem fãs tão dedicados. Eu falei com Kerry King, do Slayer, e ele disse que o Slayer sempre olha para o AC/DC como uma banda que nunca fez concessões, que fez tudo de um jeito próprio. E com o Slayer é a mesma coisa. Eu acho que isso é apenas o que eles são, decidiram fazer o rock’n’roll do jeito que eles fazem, não fazer nada que os digam para fazer e continuam fazendo isso. Eles poderiam seguir a moda, dar ouvidos a gente de gravadora para fazer coisas diferentes, mas talvez não desse em nada. A fórmula deles está totalmente correta.

 

Eles converteram o “defeito” de tocar sempre a mesma coisa em uma grande vantagem...

É, e esse foi outro motivo pelo qual eu decidi escrever o livro. Quando o Black Ice foi lançado, no ano passado, foi número um nas paradas em 29 países ao redor do mundo. E revistas de rock não colocaram a banda na capa. Na Rolling Stone americana, só aconteceu uma vez em 30 anos.

 

Falando dos problemas de saúde de Brian Johnson, você acha que ele teria condições de fazer uma nova turnê com a banda dentro de dois ou três anos?

Para ser honesto acho difícil. Independente de ele ter fi cado doente, essa é provavelmente a última turnê deles. Brian está fazendo a parte mais difícil da  performance do grupo, por causa da mecânica que acontece no corpo quando você canta. Angus pode tocar por anos a fio, assim como Malcolm, Cliff e Phil, mas Brian é o cara que tem uma inacreditável performance atlética a cada show. Eu tenho um sentimento de ele vai ser o primeiro a perceber a hora de parar, antes dos outros.

 

Você imagina o AC/DC comoutro vocalista?

Não, acho que eles são muito do tipo “um por todos e todos por um”, sem Brian eles não saem mais em turnê. Eles não precisam fazer mais turnês, ao menos não por causa de grana.

 

Em poucas palavras, por que o AC/DC é importante?

Mas eu expliquei isso em 160 páginas! vá lá: porque eles ainda fazem o que sempre se propuseram fazer.

 

Matéria publicada na revista Billboard Brasil, edição 2 (novembro, 2009).

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