O Nirvana estourou em 1991 com “Smells Like Teen Spirit”, do álbum Nevermind. Mas foi apenas dois anos antes que a banda liderada por Kurt Cobain fez sua modesta estreia em disco pela Sub Pop. Bleach, de 89, foi o álbum mais sujo e pesado da enxuta - porém expressiva - discografia da banda. E isso pode ser atribuído a três fatores. Primeiro, a banda não tinha dinheiro e o disco foi gravado com apenas US$ 606,17. Segundo: depois de bandas como U-Men, Skin Yard e Green River, do começo e meados dos anos 80, responsáveis pela estética ruidosa, crua e transgressora que ficou conhecida como grunge, a cena de Seattle e as bandas da região foram assumindo essa identidade. E o terceiro e não menos importante fator é quem estava atrás da mesa: Jack Endino, produtor e engenheiro de som, além de guitarrista e fundador do Skin Yard (que também contou com Matt Cameron, mais tarde no Soundgarden; Barrett Martin, futuro Screaming Trees e Daniel House, fundador da C/Z Records).
Endino já havia comandado as gravações de discos fundamentais do grunge como Screaming Life, do Soundgarden, Dry as a Bone, do Green River, Superfuzz Bigmuff, do Mudhoney e Buzz Factory, do Screaming Trees. Logo, a semelhança entre Bleach e o som de todas essas outras bandas não é mera coincidência. O disco recentemente completou 20 anos e está ganhando uma edição comemorativa, com as faixas remasterizadas (em CD e vinil), um show gravado em Portland (EUA), em 1990, e um libreto repleto de fotos inéditas da banda. Na 2ª edição da Billboard Brasil, que chega hoje às bancas, você confere uma reportagem especial sobre os bastidores do álbum, com depoimentos de Jack Endino e do sócio e co-fundador da Sub Pop Jonathan Poneman (para ler a entrevista na íntegra, clique aqui). No site você confere o bate-papo com Endino dividido em duas partes. Na primeira, ele relembra as sessões de gravação que ocorreram entre dezembro de 1988 e janeiro de 1989 e que resultaram no disco de estreia de uma das maiores bandas de todos os tempos. Na segunda parte (clique aqui), Jack relembra trabalhos do passado, como o feito com os brasileiros do Titãs, e projetos mais atuais, como a produção da primeira seção de estúdio em 43 anos da banda The Sonics.
Como é para você ver Bleach chegar aos 20 anos de idade?
É uma agradável surpresa ver que as pessoas ainda se importam com ele depois de tanto tempo. Na época em que estávamos fazendo eu não tinha ideia de que a banda seria tão grande. Quase fizemos uma edição de dez anos em 1999, mas havia muitos problemas legais entre Courtney, o Nirvana e a Universal. Muitos processos rolando e nada aconteceu dez anos atrás. Então, dez anos se passaram e aqui estamos apresentando a edição de luxo de Bleach. Acho que vai ser muito bom, as pessoas vão ficar satisfeitas. O pacote está muito legal e incluímos um show que ficou demais.
Acho que é o único show daquela época que foi gravado de forma correta. É legal que tem o Chad Channing (primeiro baterista oficial), é tipo um Nirvana marco zero. Ele foi gravado em 16 canais, porém nunca havia sido mixado. Cheguei no Jonathan (presidente da Sub Pop) e falei: ‘eu sei que vocês estão com essa fita no cofre. Vamos liberar, deixa eu remixá-la para ver se alguém gosta’. E calhou de ser um show e tanto, o Nirvana no auge da forma para aquela época.
Exatamente. Esse foi o prazer de dar a devida atenção no estúdio e mixá-la direito. É pesado, tem muitas canções que não estão em Bleach e acho que as pessoas vão gostar. Era hora de fazer uma edição especial.
As gravações foram convertidas para CD no início dos anos 90 e a masterização digital mudou muito nos últimos 20 anos. O equipamento está muito melhor agora, a qualidade sonora também. Os níveis de volume dos CDs daquela época eram muito baixos, a qualidade era muito baixa, era tecnologia digital rudimentar. Agora eles estão bem mais altos. Um CD de 1989, 1990 simplesmente não soa tão bem quanto os CDs que estão sendo lançados agora.
Eu disse a eles: ‘vamos achar alguém muito bom para fazer isso, para fazer a masterização digital com as fitas originais e fazer ficar o melhor possível sem descaracterizar o material. Ficou mais alto, mas não soa como se tivesse sido processado. Fui eu que sugeri o George Marino, de Nova York, que remasterizou todos os discos do Led Zeppelin e alguns do Jimi Hendrix. Ele sempre foi muito bom em lidar com álbuns históricos, mantendo a qualidade e respeitando os registros originais.
O vinil foi editado diretamente a partir da fita original. O disco nunca tinha sido masterizado, na época eu mixei ele em fita analógica. Já as faixas do show eu mixei digitalmente, pois é assim que trabalho hoje em dia.
Essa está em Incesticide e foi omitida de Bleach por que Kurt sentia que o disco já tinha faixas o suficiente. Ele, ainda, a achou muito lenta, o que também já tinha de sobra no disco.
Sim, “Downer” saiu só em CD, mas agora também está no vinil [risos].
John Poneman, o presidente da Sub Pop, na época sócio de Bruce Pavitt, gostou da versão ao vivo. Ele disse: “Isso é um hit. Vamos escolher um lado B e lançar como single para ver como se sai”. Ele ainda não estava muito seguro quanto à banda e resolveu fazer isso para testar. Kurt achou meio estranho o primeiro lançamento da banda ser um cover, mas não havia tido uma oferta melhor de ninguém [risos]. O Nirvana [formado em 1987] só havia sido uma banda de verdade há um ano, seis meses talvez, e meio ano depois disso eles já estavam gravando o primeiro álbum. Então pode-se dizer que o Nirvana aconteceu bem rápido.
O Nirvana chegou a mim em janeiro de 88. Ele ligou e falou: ‘Meu nome é Kurt. Ainda não somos uma banda direito, não temos nem nome, mas queremos ir até aí gravar algumas faixas.” E isso resultou na primeira demo, metade da qual saiu em Incesticide, três faixas saíram no Bleach e mais algumas outras no box With the Lights Out. Ou seja, ela acabou sendo lançada na íntegra. E essa foi a fita que eu dei a Jonathan.
Ele não gostou muito da música, mas curtiu os vocais. Achou a música muito heavy metal para o que a Sub Pop estava fazendo, pois essa primeira demo foi muito influenciada pelos Melvins. Eu gostei muito, do som inclusive, mas Jonathan inicialmente só se interessou pelos vocais.
Não houve pressão, mas essa era uma ideia geral do que as pessoas da região estavam ouvindo na época. Por tocar em Seattle, ver as bandas que estavam rolando e observar o que as pessoas estavam ouvindo, o Kurt pode ter sido contagiado. Mas ninguém disse a eles o que gravar. Eles gravaram o próprio material que já havia sido composto.
Sim, quando o Nirvana gravou Bleach, eles ainda nem tinham decidido se iriam lançá-lo pela Sub Pop. Tanto que o Nirvana pagou pela gravação com o dinheiro que tinham emprestado de um amigo [Jason Everman, creditado no álbum como guitarrista mesmo sem ter tocado, que pagou a merreca de U$ 606,17]. O selo sabia que a banda iria gravar e não se manifestou. O próprio Nirvana também não tinha decidido se iria lançar por eles. Kurt queria gravar por conta própria e enviar para gravadoras maiores. Chegaram para a SST, para a Touch and Go, porque não tinham certeza se queriam que a Sub Pop lançasse. Só que ninguém se interessou.
Quando o disco ficou pronto, eles inicialmente queriam lançar um CD de seis faixas. O Nirvana bateu o pé dizendo que queria lançar um álbum completo, mas não encontrava ninguém, ninguém atendia ao telefone, ninguém ouvia o disco. Por fim, Bruce pediu para eles inverterem a ordem das músicas e acabou lançando o disco completo. Essa é a história verdadeira, pode publicar. A Sub Pop não interferiu em nada, apenas inverteu a ordem das faixas, algo com que a banda não se importou.
Foram cerca de 30 horas divididas em cinco sessões. Acho que foi um dia inteiro e o resto dividido em uma série de noites.
Acho que isso é mesmo verdade. Foi bem em torno das datas festivas, mas acho que foi final de tarde, gravamos e depois todo mundo foi fazer suas comemorações.
As gravações ocorreram tão rápido que eu nem tenho muitas lembranças. Foi como um piscar de olhos. Eles eram caras muito legais, verdadeiros cavalheiros, fáceis de se lidar. De boa natureza, eram divertidos. Estavam curtindo estar no estúdio, eu curtia gravá-los. Foi uma experiência agradável. Senti que estávamos fazendo um bom disco e fiquei muito empolgado.
Ah, como de costume. Ele era um cara legal, não havia sintomas de rockstar, um cara fácil de se lidar, humilde, de boas maneiras, sem problemas de ego. E ao mesmo tempo muito concentrado, determinado. Ele não desperdiçou um segundo no estúdio, ninguém sequer tomou nem uma cerveja durantes as sessões. Não lembro de ter visto álcool, drogas, nada. Ele estava absolutamente focado, sabia exatamente o que queria, a banda estava muito bem preparada para isso. Nos ensaios eles conheciam bem as músicas, sabiam exatamente como tocá-las. Foi bem fácil.
Não, nada. Cuidei apenas da engenharia, não lembro de ter feito sugestões. Apenas garanti que a guitarra estivesse afinada e o som estivesse bom. Foi feito tão rápido que não precisei dizer nada.
Oh yeah... Ainda gosto muito. Ainda mais considerando que usamos um gravador de oito canais, um de apenas sete, em tão pouco tempo e com tão pouco dinheiro. Tenho muito orgulho de que o disco ainda soe tão bem. Soa como um disco de verdade, é um retrato apurado da banda como ela era naquela época.
Crédito da Imagem: Divulgação/Charles Peterson
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