Hoje é o tão aguardado dia do relançamento de Bleach, o sujinho, modorrento e incrivelmente poderoso disco de estreia do Nirvana. Originalmente lançado em 1º de junho de 1989, o álbum de número 34 no catálogo da Sub Pop está ganhando uma reedição de luxo em dois formatos: LP duplo, prensado em vinil branco de 180 gramas (como no original), e em CD – distribuído no Brasil pela Warner (que detém 49% das ações do selo). Ambos trazem o set completo de Bleach e a gravação de um show em Portland de 1990, além de um libreto de 48 páginas com fotos inéditas tiradas por Alice Wheeler (fotógrafa e amiga pessoal de Kurt), Tracy Marander (sua primeira namorada “oficial”) e Charles Peterson (principal fotógrafo da Sub Pop). Na edição de nº 2 da Billboard Brasil (nas bancas em 14/11) você confere uma reportagem especial sobre os bastidores das gravações de Bleach, com depoimentos de Jack Endino e do presidente e co-fundador da Sub Pop, Jonathan Poneman. Mas, por enquanto, leia com exclusividade trechos da entrevista em que Jonathan faz um balanço de como Bleach virou a gravadora de pernas para o ar e reconhece que, se um revival dos anos 90 está prestes a acontecer, ele estará lá para vender.
Pelo visto uma onda de nostalgia anda pairando por Seattle...
É difícil acreditar que tanto tempo tenha se passado, mas ouvir a versão remasterizada tem tanto poder tanto quando a lançamos. Até mais, já que o som está melhor. Soa mais dinâmico, mais ao vivo. O disco nunca havia sido masterizado, era algo com que não nos importávamos.
É verdade que antes de assinar com o Nirvana, o Bruce (Pavitt, ex-sócio de Jonathan) mandou mudar a sequência das faixas?
Nós dois fizemos sugestões quanto à ordem das músicas, não houve registro formal da ordem que as músicas deveriam ter e a banda não tinha uma opinião muito forte com relação a isso. Eles obviamente tinham suas opiniões, mas não se impuseram. Estavam apenas empolgados em lançar um álbum.
Por que, originalmente, “Big Cheese” e “Downer” ficaram fora das tiragens em vinil?
Porque “Big Cheese” era o lado B do single “Love Buzz” e na época estávamos tentando manter uma faixa exclusiva para o Singles Club [sistema em que o assinante recebia um compacto da gravadora por mês], algo que hoje pode parecer fora de moda, mas que na época era bem legal [risos]. Não lembro porque “Downer” ficou fora, acho que para ser exclusiva para o cassete ou para o CD. Tínhamos sempre essa preocupação com exclusividade de formatos. Definitivamente, não foram deixadas de fora por questões editoriais. Há takes originais que foram gravados com [o produtor] Jack Endino e que também não entraram [e mais tarde sairiam na coletânea Incesticide, e no box With the Lights Out], mas isso foi um decisão da banda. Agora, todas as músicas que integram a edição de luxo [incluindo “Big Cheese” e “Downer”] foram originalmente pensadas para fazer parte de Bleach. Não ficou nada no cofre.
Por que vocês escolheram esse show de Portland, especificamente?
Acho que naquele show estavam tocando Screaming Trees, TAD e Nirvana. Colocamos lá simplesmente porque foi um bom show que conseguimos gravar em uma mesa móvel de 24 canais, de modo que pudesse ser mixado. E simplesmente foi um bom show.
Que tipo de atrativos gráficos farão parte da edição de luxo?
Vai ter um libreto de 48 páginas com fotos inéditas e uma apresentação que, na minha opinião, está extraordinária. Acho que é uma celebração vívida da banda, do jeito que ela era na época do lançamento.
Você lembra como se sentiu na primeira vez que ouviu as faixas que acabaram em Bleach?
Algumas músicas marcaram mais. Quando ouvi “About A Girl” pela primeira vez fiquei arrebatado, assim como “Blew”. Era incrível como Kurt tinha o ímpeto e o talento para se destacar, enquanto compositor, dos demais artistas da Sub Pop. O Nirvana fazia rock tão bom quanto os outros, mas havia uma sofisticação melódica e uma ambição que ninguém mais tinha.
Essa foi aquela primeira demo que eles gravaram com Jack Endino?
Isso. Jack nos mostrou uma cassete que tinha gravado com eles e, quando ouvi pela primeira vez, fiquei abismado. Eu queria lançar logo de cara, mas levou um tempo porque, nós não só estávamos sem dinheiro e não sabíamos o que estávamos fazendo, como a banda ainda não estava com a formação definida [nessa ocasião, no começo de 1988, Dale Crover, baterista dos Melvins, estava dando uma força para o Nirvana], já que o Chad Channing acabaria sendo o primeiro baterista fixo.
Há quem diga que a Sub Pop exerceu algum tipo de pressão sobre o Nirvana para fazerem-nos soar mais como o “Seattle Sound”.
Nós nunca tentamos fazê-los soar grunge ou mandamos que usassem pedais de distorção. O valor do selo está em uma objetividade editorial. Nunca impomos nossa linha, mas não hesitamos em declará-la publicamente. Às vezes uma banda acha que todo o seu material é bom, enquanto outras procuram se adequar ao que as pessoas estão escutando. Desde a morte do Kurt, tornou-se de conhecimento comum o fato de ele ter sido um sujeito muito focado e ambicioso. Eu não acho que nenhuma das projeções que dividimos com ele era algo que ele mesmo não pensasse. Quando eu e Bruce declaramos ser fãs de Motown, Stax e de todos os grandes selos independentes, não é que queremos que tudo soe igual, apenas estamos em busca de consistência e excelência. Nem sempre conseguimos isso, mas sempre foi o objetivo. Só que, se o Nirvana se adequou de alguma forma ao que estávamos perseguindo, foi uma decisão pessoal.
Dá para dizer que Bleach é o disco mais rentável do catálogo da Sub Pop?
Talvez depois da segunda edição [risos]. Com certeza é o que mais vendeu e o que menos custou, mas você tem que lembrar que muito disso aconteceu em uma época em que a operação fonográfica era muito mais cara do que hoje em dia. Pela natureza física, discos eram mais caros para produzir, armazenar e distribuir. Se tivéssemos vendido a mesma quantidade [três milhões de cópias] durante a era digital, aí sim teria sido o disco mais lucrativo. Dá para dizer que o primeiro do The Postmarks, que vendeu um milhão segundo os novos moldes, foi mais lucrativo. Mas claro que o Nirvana foi um fator definitivo para a Sub Pop. Não apenas pelo quanto lucrou, mas pelo legado e pela busca pelo padrão de excelência que, eventualmente, foi definido pelo Nirvana. Bleach vendeu três milhões de cópias ao redor do mundo.
E quando foi lançado, como vendeu?
Logo que foi lançado se tornou um disco muito poderoso (vendeu cerca de 50 mil cópias), mas ainda competia com Superfuzz Bigmuff, do Mudhoney (que vendeu 100 mil), até então a banda líder em vendas da Sub Pop. Mas quando Nevermind saiu, Bleach passou a vender milhares e milhares de cópias. Vendemos como nunca havíamos sonhado, mais do que todo o catálogo da gravadora junto, atingimos uma nova escala comercial.
Além desses, quais mais são líderes em vendas?
O primeiro do Fleet Foxes, todos os três do The Shins, que venderam meio milhão cada, o Postal Service também. Para os padrões da indústria não são números tão altos, mas para os padrões da nossa operação, são muito bons.
E essa é a segunda reedição de luxo que vocês lançam. No ano passado foi Superfuzz Bigmuff. Como ele se saiu?
Superfuzz Bigmuff vendeu 20, 25 mil cópias no mundo. Francamente, é o que nós esperávamos. Rock mais antigo é algo para o fã, para o colecionador, o obsessivo. Nunca esperamos recriar o fervor e as vendas do lançamento original.
E quais as expectativas para a nova versão de Bleach?
Pessoalmente, não faço ideia do quanto a segunda edição venderá. É um disco que mantém um padrão de vendas e, no mínimo, manterá esse padrão. Há muitas variáveis. Uma delas é que as pessoas se acostumaram a adquirir música de graça. A outra é que o valor do novo pacote do Bleach é a apresentação. E se as pessoas usam isso como medida ao comprar o disco, é uma questão que nasce todo dia na indústria musical. Para alguns artistas, há sempre uma porcentagem de fãs que irão se apegar a esses fatores, mas há artistas para os quais essas coisas são secundárias. Como Bleach é um disco fundamental para toda uma geração de ouvintes, imagino que deva se sair bem. Temos um orçamento para cobrir esses lançamentos que procuramos manter muito baixos. Para cobrir esses números, precisamos vender a partir de 20 mil cópias e acho que atingiremos essa marca tranquilamente. Se o Mudhoney conseguiu...
Esse trabalho de valorização do próprio legado é algo a que a Sub Pop pretende se apegar nos próximos anos?
Nosso cronograma foi mais leve este ano e nos permitiu revisitar Reverend Horton Heat, The Vaselines, Sunny Day Real State [os dois primeiros] e Nirvana. No ano que vem, acho que só teremos a chance de rever alguns discos do TAD. Surpresas estão a caminho. Teremos tantas novidades que não haverá tempo ou energia para olharmos para trás da mesma forma que estaremos olhando para a frente. É música antiga. Claro que tem uma recompensa artística e espiritual, mas isso tem limite.
Por que os discos da Sub Pop saem cada vez menos no Brasil – o último foi The Lucky Ones, do Mudhoney (Inker, 2008).
O seu mercado é complicado para a gente, bem diferente do que estamos acostumados. Não temos um instinto para o mercado da América Latina. Se alguém chegar em nós com um acordo que entendamos, com uma boa reputação, aí há uma oportunidade. Mas, em muitas formas, somos limitados pela nossa tradição. Sei que há gente bem intencionada, com boa reputação, que às vezes faz boas propostas. Mas isso normalmente parte de selos pequenos, como o que aconteceu com The Lucky Ones. Ou situações que por algum motivo não se concretizaram. Mas nada que possa impedir futuras possibilidades.
Estamos saindo de uma década dominada pelo revival dos anos 80. Uma nostalgia dos anos 90 está a caminho?
Provavelmente, isso parece bem previsível. Mas acabei de fazer 50 anos de idade e estou em um momento da minha vida em que passei a aceitar o fato de não entender como as coisas funcionam. E tudo bem, pois acho que é assim que as coisas devem ser. Quanto mais você sente que entende as coisas, as chances são de que menos você entende. E, quanto a algo ser reavivado ou não, acho que é previsível.
Para vocês seria como ganhar na loteria duas vezes.
[Risos] Com certeza. Mas não quero me amparar na ilusão de uma previsão. Obviamente, se as pessoas estiverem interessadas nas nossas bandas dos anos 90, claro que estarei aqui para vender. Mas não é algo com que estou contando.
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